A borracha que está mudando os wetsuits e o mito do "neoprene verde"
Há mais de dez anos, a Patagonia publicou um texto direto: não existe neoprene verde. Na mira estava o "neoprene de calcário ou Limestone", vendido na época pela indústria como uma alternativa mais limpa — a associação com conchinhas de praia fazia parte do apelo. A marca chamou isso pelo nome certo: greenwashing.
O texto chegou às mãos de dois engenheiros que já trabalhavam havia décadas com borracha natural em aplicações médicas, agrícolas e de consumo. Eles enxergaram ali uma pergunta técnica interessante: seria possível substituir o cloroprene — a borracha sintética derivada de petróleo que forma a base do neoprene convencional — por borracha natural, sem perder desempenho?
De um desafio a uma amostra de laboratório
A resposta começou com guayule, uma planta nativa do México, historicamente usada como fonte alternativa de borracha natural. Em laboratório, a dupla desenvolveu uma espuma de célula fechada com propriedades parecidas às do neoprene tradicional. Levaram a amostra até a Patagonia. Numa reunião que incluiu o fundador da marca, a ideia foi aprovada. Nascia a Yulex — hoje o nome mais associado à substituição do neoprene por borracha natural na indústria do surf.
Os primeiros anos não foram fáceis. As primeiras gerações da espuma tinham reputação de ser mais rígidas e menos quentes que o neoprene convencional — um problema real de manufatura, não de matéria-prima. Levou anos de parceria técnica com fabricantes na Ásia para que a formulação alcançasse (e hoje, segundo a própria Yulex, ultrapasse) o desempenho do neoprene tradicional. Os wetsuits atuais já chegam a cerca de 85% de borracha natural, com fabricantes como a Decathlon anunciando versões de 100%.
Quem já trocou
A lista de marcas que adotaram Yulex ou tecnologia derivada dela cresceu de forma constante: Patagonia, Finisterre, Billabong, Oxbow, Need, Srface, e mais recentemente a Xcel, que anunciou a meta de migrar toda sua linha até 2026. O que começou como resposta a uma crítica de greenwashing virou, aos poucos, um novo padrão técnico para a indústria.
O mito que ainda circula
Vale um adendo importante: o "neoprene de calcário" — aquele que a Patagonia criticou lá atrás — continua no mercado, e sua imagem de material "mais limpo" persiste. Mas, segundo análises de emissões de carbono conduzidas pela própria Yulex, o processo de produção de neoprene a partir de calcário emite mais carbono que o processo baseado em petróleo, não menos. A associação com conchinhas e praia é estética, não uma credencial ambiental.
É um lembrete útil: nem toda alternativa que soa mais natural é, de fato, mais sustentável. Vale sempre perguntar o que está por trás do rótulo.
O outro lado da borracha natural
Borracha natural também tem seus próprios riscos — desmatamento, condições de trabalho precárias, cadeias de suprimento opacas. Por isso, desde o início da parceria com a Patagonia, a Yulex investiu em construir uma cadeia de suprimentos certificada e rastreável até a plantação de origem. O que começou como uma escolha voluntária está se tornando exigência regulatória: a União Europeia já está tornando a rastreabilidade de borracha natural obrigatória para produtos importados ou exportados no bloco.
O que ainda falta resolver
Um wetsuit — como boa parte das roupas técnicas de esportes aquáticos — combina vários materiais diferentes (náilon, poliéster, elastano, borracha) colados ou costurados entre si. Essa combinação, ótima para desempenho, é um obstáculo para reciclagem: desmontar essas camadas no fim da vida útil da peça ainda é um processo caro e pouco eficiente. Técnicas como a pirólise (transformar o material de volta em matérias-primas por meio de altas temperaturas) são promissoras, mas ainda não são padrão da indústria.
Ou seja: a transição para borracha natural resolveu um problema real — a dependência quase total do setor em petroquímicos — mas o desafio da circularidade completa continua em aberto.
Por que isso importa pra gente
Na Tropical Magia, escolhemos trabalhar com Yulex® e Poliamida Bio não porque soam bem no rótulo, mas porque têm rastro documentado — do plantio até a peça que chega até você. Achamos que essa é a única forma honesta de falar em sustentabilidade: mostrando o processo, inclusive as partes que ainda não estão resolvidas.
Fonte: entrevista com Jeff Martin, fundador e CEO da Yulex, publicada pela Wavelength em dezembro de 2023.
